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Uma vida em livros

por BeatrizCM, em 05.01.15

Comecei a ler porque aprendi a gostar de livros desde que era uma criatura minúscula sentada num bacio e tinha uma data de livros daqueles que se abrem e têm figuras em relevo que saltam para fora das páginas, com as histórias infantis que a Disney e Hollywood continuam a insistir em adaptar para o cinema (Cinderela, O Gato das Botas, Capuchinho Vermelho, etc etc). Aliás, desde o berço que não me lembro de alguma vez ter passado sem livros, mesmo quando ainda nem sabia ler, ou pior, falar. E, caso eu me esqueça que a minha adoração por livros vem desde as fraldas, há fotografias e pessoas que já eram seres conscientes nessa altura que comprovam que eu sempre gostei deles.
Durante a primária, até depois de aprender a ler, chegava a obrigar os meus pais a comprarem-me livros que eu acabava por não ler, simplesmente porque EU SEMPRE GOSTEI DE LIVROS (já tinha referido?). Só o facto de os ter já me deixava satisfeita e ainda tenho montes de bandas desenhadas do Astérix, do Lucky Luke, dos Marsupiais e do Tintin por ler (para aí 75℅ deles). Infelizmente, também tinha imensos livros d'Os Cinco, mas fui bestialmente estúpida e dei-os já não me lembro a quem - tenho saudades.
Quanto aos calhamaços, devo ter acordado para eles por volta daquela Feira do Livro a que fui, talvez aos 10 ou 11 anos (uma de tantas), quando a minha avó disse que eu podia escolher um livro qualquer para levar e eu escolhi aleatoriamente o Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. Comecei a lê-lo, tomei o vício e não descansei durante os dois ou três anos seguintes, enquanto não tive a colecção completa, incluindo o sexto e o sétimo volume que ainda nem tinham saído na altura.
Depois do Harry Potter, e pelo meio do Clube das Amigas e os livros do Artur e os Minimeus, vieram os The Princess Diaries, que, mais uma vez, coincidentemente, comecei pelo terceiro volume. Como comprar a colecção toda seria muito caro, descobri o mundo da pirataria online e saquei os volumes que me faltavam... em Inglês. E foi assim que comecei a ler na minha primeira língua estrangeira.
Pouco depois, deu-se início à febre Twilight e grande parte das aulas do meu 9°ano são uma amálgama de lembranças cheias de nevoeiro, memórias distantes, porque eu as passava quase todas em Forks, a tentar descobrir quando é que o Edward e Bella iam finalmente "para a cama". Ainda por cima, eu era a pioneira da turma a desbravar os livros do Crepúsculo, graças a uma colega que me emprestava os livros, pelo que a minha leitura representava os interesses de toda essa turma, maioritariamente constituída por meninas adolescentes a rebentar de hormonas. Ironia das ironias, o último volume foi lançado nas últimas semanas de aulas e só nele é que os ditos cujos foram "para a cama". Nunca consegui avisar as minhas colegas a tempo. Devo sublinhar que ler durante as aulas não me prejudicou em nada, porque acabei o 3° ciclo com 5 a tudo, excepto um 4 a Educação Física.
Aqui pelo meio impõe-se um interregno, pois eu própria quis começar a descobrir se podia fazer da minha vida um romance da Nora Roberts (foi uma época deprimente, pois foi). Correu mal e quase se ia tornando um romance da Jodi Picoult ou do Nicholas Sparks.
A seguir a essa fase, descobri a biblioteca da Junta de Freguesia e da escola secundária e, dentro delas, os romances de faca e alguidar, nomeadamente aqueles que deram origem a comédias e dramas românticos que foram sucessos de bilheteira na década passada.
No entanto, os romances levezinhos foram dando lugar à vontade de experimentar outros géneros, outros tipos de escrita e outros autores. Lá para o final do secundário, iniciei-me nos "autores sérios", principalmente José Saramago e Haruki Murakami, a quem devo a árdua tarefa de me abrirem os olhos para o mundo que ainda tinha e ainda tenho por explorar na cena literária.
Depois, entrei na faculdade, fui obrigada a sair da zona de conforto da ficção e a entrar no ensaio e no comentário. Comecei a ler livros de filosofia e de cultura, de história e linguística. Adaptei-me surpreendentemente bem.
Neste momento, ando a vaguear por aí, sem rumo bem definido. Só sei que continuo a ler todos os estilos e géneros de livro que enumerei, mesmo aqueles que me enchiam as medidas quando era um mero saco de sentimentos exultantes e pululantes, ansiando aventuras que me roubassem o coração e me arrebatassem a alma... Sou é mais picuinhas.
E nunca deixei de gostar de capas bonitas!

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